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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Rei do Rio - 1985

Sinopse:


No Rio de Janeiro, Tucão e Nico Sabonete, amigos desde criança, trabalham no jogo do bicho para Mestre Cacareco. Sonham com uma vida melhor e se associam para fazer frente ao grande banqueiro e ocupar seu lugar.

Com o próprio dinheiro de Cacareco, Tucão e Nico acertam uma aposta, montam seu negócio e conseguem vencer o grande banqueiro. Estamos em 1964. Um golpe militar derruba o governo João Goulart. A vida melhora para os dois quando Cacareco é eliminado.

Já casados e com filhos, Marco e Thaís, e com as mulheres também amigas, o relacionamento deles começa, entretanto, a ser abalado quando se inicia a disputa pelo poder. Os dois trabalham e se arriscam igualmente, mas Tucão usufrui do poder com maiores regalias. Ganha a diretoria da escola de samba, sai nos jornais ao lado de empresários e políticos, e tem um maior número de pontos de bicho espalhados pela cidade.

Marília, amante desde sempre de Tucão, é uma cantora que começou em teatro de revista e, no momento, canta os sucessos do rádio e da TV nos melhores palcos da cidade. Mulher influente, amiga dos políticos e delegados, faz tudo para ampliar os contatos de Tucão. Ela quer levá-lo ao tráfico de drogas.

Tucão recusa-se, pois quer proteger o nome e a honra de sua bem constituída família. O grupo de Marília consegue, então, a prisão de Nico e Tucão para intimidá-los. Deixando Nico na cadeia entregue à sua própria sorte, Tucão sai da prisão, simulando que vai aceitar o tráfico de drogas.

Entretanto, engana Marília, uma vez que, para ele, "jogo e droga não se casam". Com a declaração de guerra, rompe-se definitivamente a relação de amizade entre as duas famílias. Tucão persegue e proíbe o amor entre Marco e Thaís. Marco fica à frente dos negócios do pai e logo evidencia também sua sede de poder.

Ficha Técnica:
Título Original: REI DO RIO
Gênero: Drama
Duração:
Lançamento no Brasil: 1985
Lançamento Comercial :
Direção: Fábio Barreto
Roteiro: Fábio Barreto, Jorge Durán, José Jóffily
Produção: Luiz Carlos Barreto, Lucy Barreto, Luiz Carlos Lacerda
Música Original: Sérgio Saraceni, Eduardo Dusek, Luis Carlos Góes
Fotografia: José Tadeu Ribeiro, Murilo Salles
Edição: Raimundo Higino
Design de Produção: Pedro Nanni
Direção de Arte: Anísio Medeiros
Figurino: Tetê Amarante
Maquiagem: Antônio Pacheco
Efeitos Sonoros: Heron Alencar, Cláudio Farias, Enock Santos
Efeitos Especiais: Sérgio Farjalla

Elenco:
Nuno Leal Maia ........ Tucão
Nelson Xavier ....... Nico Sabonete
Milton Gonçalves ....... Cacareco
Andréa Beltrão ....... Taís
Amparo Grisales ....... Marília
Márcia Barreto ....... Célia
Paulo Callado
Tessy Callado . ....... Tereza
Carlos Gregório
Guilherme Karan
Lutero Luiz
Zezé Macedo
Tonico Pereira ....... Delegado Paixão
Antônio Pitanga ....... Geraldão
Telma Reston
Flávio São Thiago .... Farias
Sandro Solviatti .......
Tony Tornado ....... Kidoka
Carlos Wilson .......

Prêmios:
• Festival de Caxambu
Prêmio de Melhor Direção
Prêmio de Melhor Fotografia
Prêmio de Melhor Música Original
Prêmio de Melhor Design de Produção

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Romance da Empregada - 1988


Sinopse:

Fausta é uma empregada doméstica que sonha em ser a cantora Tina Turner e em comprar o seu próprio barraco. Para tanto, ela trabalha arduamente, embora não satisfeita por ter que suportar as exigências da severa patroa.

Por enquanto, vive num barraco de favela, em companhia de seu marido, João, um alcoólatra. Diariamente, pega o trem na mesma estação, juntamente com suas colegas domésticas. Certo dia, discute com sua patroa e é demitida. Chega em casa, discute com o marido alcoólatra e acaba apanhando.

Um dia, no percurso que sempre fazia entre a casa e o trabalho, ela conhece Zé da Placa, um homem bem mais velho, que carregava cartazes de propaganda na Estação Ferroviária. Zé da Placa era um homem que também acreditava na vida e, logo, compra um perfume para ela e a convida para passarem juntos os domingos.

Assim, vão ao Planetário, onde Zé lhe presenteia com um broche. Seu marido, João, machuca o pé no trabalho e é obrigado a ficar em casa até melhorar. A ex-patroa de Fausta a chama para ficar tomando conta de sua casa, enquanto viaja. Nesse período, João se envolve com uma mulher da favela. Ao tomar conhecimento da traição, ela rompe com o marido e o coloca para fora da cama.

Quando Zé da Placa adoece, Fausta vai visitá-lo, ocasião em que ele comenta ser ela muito parecida com sua antiga esposa, e lhe presenteia com um walkman, com o qual ela sempre sonhara. Os dois vão até Paquetá e fazem planos para comprarem um terreno e construirem uma casa. Fausta vislumbra a possibilidade de abandonar João e a favela. Mas o velho passa a dissimular e ela assume um comportamento agressivo, cobrando dele o prometido.

Num dia chuvoso, Zé a acompanha até o barraco onde encontram João bêbado, que discute com os dois, enquanto o barraco é tomado pelas águas. Zé da Placa passa mal e morre em cima da cama. Fausta sobe ao telhado, esperando a água baixar para recomeçar sua vida.

Ficha Técnica:
Título Original: Romance da Empregada
Gênero: Drama
Duração: 90 min.
Lançamento (Brasil): 1988
Estúdio: Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas Ltda.
Distribuição: Embrafilme
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Naum Alves de Souza
Produção: Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto
Música: Ruben Blades
Fotografia: José Medeiros e José Tadeu Ribeiro
Direção de arte: Paulo Flaksman
Figurino: Rita Murtinho
Edição: Isabelle Rathery

Elenco:
Betty Faria ........ Fausta
Brandão Filho ........ Zé da Placa
Daniel Filho ....... João
Stela Freitas ....... amiga de Fausta
Raul Gazolla
Cláudia Jimenez
Eri Johnson
Expedito Barreira
Nika Bonfim
Mário Borges
Neuza Borges
Cândido Damm
Arthur Costa Filho
Lutero Luiz ....... policial
Marcos Palmeira ....... Luiz
Antônio Pedro ........ Joaquim
Cristina Pereira ....... cozinheira
Tonico Pereira
David Pinheiro
Zezé Polessa
Ivan Setta
Paulo Gracindo
Fafi Siqueira
Tamara Taxman ........ empregada de Fausta
Ana Lúcia Torre
Vic Militello ........ amiga de Fausta
Maria Dealves

Prêmios e Indicações:
Festival de Havana, Cuba
   • Melhor Atriz (Betty Faria)

Raizes do Brasil - 2004



Sinopse:

A vida e obra de Sérgio Buarque de Ho- llanda, um dos principais intelectuais do Brasil no século XX e autor dos livros "Raízes do Brasil" e "Visões do Paraíso". Dividido em duas partes, o filme mostra desde o cotidiano de Sérgio, incluindo o modo como interagia com a família e amigos, até um panorama cronológico de sua época, em que li- dou com o nazismo, os anos de Getúlio Vargas no poder e a ascensão do movimento modernista no Brasil.

Ficha Técnica:
Título Original: Raízes do Brasil

Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 140 min.
Ano de Lançamento (Brasil): 2004
Distribuição: Riofilme
Direção: Nélson Pereira dos Santos
Roteiro: Nélson Pereira dos Santos e Miúcha
Produção: Márcia Pereira dos Santos e Maurício Andrade Ramos
Fotografia: Reynaldo Zangrandi
Edição: Alexandre Saggese

Elenco:
Chico Buarque
Sílvia Buarque
Miúcha
Maria Amélia
Cristina Buarque
Zeca Buarque
Ana de Hollanda
Maria do Carmo de Hollanda
Antônio Cândido
Paulo Vanzolini
Sergito
Alvinho


Curiosidades:
• Raízes do Brasil - Uma Cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda surgiu quando Nélson Pereira dos Santos aceitou a sugestão de Ana, uma das filhas de Sérgio. O documentário não fica apenas no livro, ou no legado intelectual do historiador. Com o objetivo de aproximar a platéia do biografado, Nélson optou por dar menos espaço aos estudiosos e mais aos familiares e amigos, como a viúva Maria Amélia, os filhos Chico e Miúcha (que colaborou com o roteiro), a neta Bebel Gilberto, além de Antônio Cândido e Paulo Vanzolini; Sílvia, neta de Sérgio, lê trechos de Raízes do Brasil.

Sobre o filme:
O filme Raízes do Brasil é um documentário dirigido por Nelson Pereira dos Santos a respeito da vida e da obra do escritor e jornalista Sérgio Buarque de Holanda.

O lançamento do longa-metragem no Brasil, em 2004, foi uma homenagem ao centenário de nascimento de Sérgio Buarque de Holanda (1902). O documentário inclui imagens do arquivo pessoal do escritor e cenas históricas (século XX).

domingo, 11 de outubro de 2009

Rio Zona Norte


Sinopse:

O sambista Espírito da Luz Soares, um homem um tanto quanto desiludido, ao viajar num trem de subúrbio, cai nos trilhos. Enquanto agoniza, repassa sua vida desde o tempo em que cantava em festas de salão, seus sambas, o sofrimento para tentar gravá-los, o assassinato de seu filho, etc.

Na escola de samba, apresenta um de seus sambas e chama a atenção de Moacir, compositor rico e sofisticado, que se dispõe a ajudá-lo. No dia seguinte, conversa com o compadre Honório, com quem está construindo uma nova casa.

Uma moça, Adelaide, procura Espírito e os dois ficam juntos. Fazem planos para se casarem. Ele discute com seu filho, Lourival, que procura Honório atrás de dinheiro para viajar para São Paulo.

Na mesma época, Maurício, um ganancioso homem de negócios, também nota seu talento e lhe oferece uma oportunidade no rádio. Ele termina se associando a Maurício, que trata de roubar-lhe o samba e fazer com que ele perca qualquer garantia ou direito sobre a obra. Por outro lado, relembra a morte de seu filho mais velho quando, por conta de dívidas com marginais, termina assassinado a facadas e pedradas em sua frente.

Ele relembra, ainda, que, apesar de toda sua tristeza, encontra refúgio em seu trabalho como compositor e apresenta um samba a uma das mais célebres cantoras da época, Ângela Maria, que o interpreta magnificamente. É quando ele atinge seu ponto mais alto de satisfação e realização.

Finalmente, ele relembra seu contato com Moacir, para estabelecer algo definitivo, e os últimos momentos no trem quando, solitário, começa a cantar um samba para o Rio de Janeiro, até cair do vagão. Uma ambulância chega para socorrê-lo, que continua inconsciente junto aos trilhos.

No hospital, Moacir e Honório permanecem juntos a Espírito. Ele morre e os dois conversam sobre os sambas do amigo.

Ficha Técnica:
Título Original: Rio Zona Norte
Gênero: Drama
Duração:
Lançamento :1957
Distribuição:
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos
Produção: Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos, Mário Aldrá, Ciro Freire Cúri
Direção de produção:
Co-produção:
Edição: Mário Del Rio
Música Original: Alexandre Gmatalli, Zé Kéti
Fotografia: Hélio Silva
Direção de Arte: Lito Cavalcante

Elenco:
Grande Otelo........ Espírito da Luz Soares
Paulo Goulart .......Moacir
Jece Valadão....... Maurício
Malu Maia....... Adelaide
Zé Keti .......Alaor Costa
Haroldo de Oliveira ........Lorival
Ivan de Souza
Ângela Maria


Sobre o filme:
Quando foi lançado em 1957, Rio Zona Norte experimentou fracasso de público e de crítica. Os críticos que o condenaram - entre eles, Alex Viany e Paulo Emílio Salles Gomes - apontaram uma espécie de involução no estilo do jovem cineasta que iniciara a carreira de forma impactante e polêmica com Rio, 40 Graus (1955). A novidade apresentada pelo filme de estréia, consubstanciada numa abordagem direta e realista, ainda que irregular, da ambiência popular e na busca por um cinema feito nas ruas e nas favelas, no qual o personagem central era a própria cidade do Rio de Janeiro, dava lugar, em Rio Zona Norte, ao recorte melodramático no tratamento da intriga, aos recursos de roteiro e montagem típicos do cinema convencional hollywoodiano (como o uso do flash-back) e a um desequilíbrio na condução da mise-en-scène, ora pendendo para um realismo difuso, ora lançando mão de recursos expressionistas. Os famosos pressupostos neo-realistas, sempre proclamados a propósito de Rio 40 Graus, não encontravam em Rio Zona Norte uma tradução à altura. O segundo longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos decepcionou os que enxergaram em Rio 40 Graus o início de um cinema realista brasileiro talvez comparável à escola neo-realista italiana.

O processo de revalorização de Rio Zona Norte se dá com a produção crítica/ensaística do cinema novo, já nos anos 1960, notadamente a partir das análises de Glauber Rocha reunidas e publicadas em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (1963). Anos mais tarde, o filme será francamente elogiado num artigo escrito por David E. Neves e publicado no número 28 da revista Filme Cultura, em fevereiro de 1978, no qual o crítico e cineasta define Rio Zona Norte como “um dos filmes mais inspirados” de Nelson Pereira dos Santos. Buscando valorizar os diversos recursos de mise-en-scène, Glauber comparará Nelson Pereira a Luchino Visconti; David Neves, por sua vez, destacará a estrutura do roteiro (escrito por NPS), louvada justamente por fazer uso expressivo de recursos como flash-back.

Um “filme menor” acaba por se tornar, anos mais tarde, uma “obra-prima”. Esta é uma trajetória até certo ponto comum a filmes que, em seu tempo, não são devidamente compreendidos por não apresentarem à crítica e ao público o que estes esperam assistir. Visto hoje, Rio Zona Norte assume um outro valor, diferente de quase todas as preocupações não só dos críticos que o rejeitaram em 1957, mas também dos que o revalorizaram nos anos 1960 e 1970. Não é mais o caso de situá-lo entre os filmes “maiores” ou “menores” de um cineasta consagrado como Nelson Pereira dos Santos. Diante de Rio Zona Norte, estamos conscientes de que se trata de um filme que adquiriu importância histórica indiscutível. Não nos incomodamos com o fato de que seu realizador introduz, contraditoriamente, uma estrutura em flash-back no interior de uma narrativa que se pretendia neo-realista, justamente porque tais questões - fidelidade ou não aos conceitos teóricos do neo-realismo - não são vivenciadas de forma acalorada e imediata pelo espectador de hoje. O que antes era visto como oscilação de estilo do jovem cineasta é hoje nosso ponto maior de interesse. Acompanhar tal oscilação é algo muito mais revelador do que cobrar e vigiar uma virtual coerência e fidelidade a sabe-se lá que escola ou proposta teórica.

Rio Zona Norte é, portanto, um filme protegido pelo tempo. Aquilo que entre nós é extremamente difícil do ponto de vista material - preservar um filme brasileiro da ação predatória dos anos - é sempre possível no âmbito dos discursos ideológicos que são a base da historiografia do cinema brasileiro. Nesse segundo aspecto, Rio Zona Norte teve o tempo como aliado.

Um “filme clássico” naturalmente intimida certas considerações. Nem por isso, deve ser visto como obra intocável, como peça de museu a exigir apenas sóbria contemplação respeitosa. Felizmente, Rio Zona Norte possui a graça necessária que resiste a tal postura. Talvez, passados os seus quase 50 anos de existência, a palavra que melhor traduza a sensação que sentimos ao assisti-lo seja encantamento. Há encantamento de sobra na magistral interpretação de Grande Otelo como o sambista Espírito da Luz Soares, nas músicas de Zé Keti e Vargas Júnior, nas cenas em interior que buscam retratar o tempo interno das ações cotidianas, nas cenas rodadas na rua e na beira dos trilhos do trem de subúrbio, na participação de Ângela Maria como ela mesma, na cadência da antiga batida do samba de terreiro, na partitura musical de Alexandre e Radamés Gnatalli, na ambientação da rádio, no tom coloquial dos diálogos, no uso dos recursos narrativos clássicos, na iluminação e nos enquadramentos de Hélio Silva, na figura de alguns dos atores-mirins. E todos esses belos momentos se tornam ainda mais significativos quando pensamos em Rio Zona Norte num contexto mais amplo da história do cinema brasileiro.

Nesse sentido, deve-se destacar a lucidez da proposta de Nelson Pereira dos Santos. Rio Zona Norte é uma obra que busca dialogar com diversos estilos característicos do cinema que se fazia aqui, nos anos 1950. Por esta razão, reafirma e antecipa questões e tratamentos estéticos. O que era considerado oscilação de estilo pode ser visto então como estratégia típica de uma obra que percebia uma guinada nos estatutos de roteiro e de mise-en-scène no cinema brasileiro. Não só acusava tal guinada como efetivamente a assumia. Por esta razão, verifica-se o uso de procedimentos de melodrama e de chanchada e, ao mesmo tempo, a busca pelo realismo em certos momentos da narrativa. Rio Zona Norte é um herdeiro direto das produções da Atlântida, sobretudo dos filmes “sérios”, que buscavam tematizar questões sociais. Rio, Zona Norte aproxima Nelson Pereira do José Carlos Burle e do Alinor Azevedo de Também Somos Irmãos (J. C. Burle, 1949), até por também aproveitar-se do ambiente da favela e por trabalhar com Grande Otelo numa chave dramática de interpretação.

A localização da trama no universo das rádios e a figura central do sambista Espírito, isto é, de um compositor popular inédito, também liga Rio Zona Norte às chanchadas e ao cinema de Alex Viany, Moacyr Fenelon, Burle e Alinor. Tal filiação indica que Nelson Pereira dos Santos buscava realizar um filme atraente para o público e para os exibidores, unindo suas intenções dramáticas à estratégia dos filmes musicais comerciais então dominantes. Uma aventura como Rio 40 Graus não poderia ser repetida. Tratava-se, isso sim, de garantir a continuidade da carreira de cineasta. O exemplo dos veteranos da Atlântida estava aí justamente para ser retomado e retrabalhado.

Ao mesmo tempo, ao contrapor dois universos bastante demarcados, isto é, o de Espírito da Luz, sambista inédito e morador de uma favela, e o de Moacir (Paulo Goulart), um músico de classe-média da Zona Sul carioca que vai ao subúrbio para tomar contato com a cultura popular e acaba fascinado com o talento de Espírito, Nelson Pereira dos Santos vai estabelecer numa sub-trama a principal discussão que será travada no âmbito cultural e artístico brasileiro dos anos 1960, entre uma cultura erudita e de vanguarda com pretensões revolucionárias e a cultura popular tradicional, que seria, por isso mesmo, “autêntica”. Em resumo, trata-se do próprio dilema cinemanovista. O significativo é que a visão que Nelson Pereira imprimirá, ainda em 1957, será bastante pessimista, o que confere ao filme um tom premonitório (aliás, resgatado recentemente por Lúcia Murat num dos segmentos narrativos de Quase Dois Irmãos, de 2004). Talvez esse pessimismo tenha sido um dos responsáveis pelo insucesso do filme na época de seu lançamento; contudo, permanece como seu aspecto mais lúcido.

O confronto entre a cultura erudita e a cultura popular não era novo. Pelo contrário: a chanchada inúmeras vezes o tematizou. O aspecto diferencial de Rio Zona Norte se dá na forma como esse confronto se internaliza no próprio filme. Desde o princípio somos colocados diante de uma situação trágica: Espírito caiu do trem e está moribundo. O drama não se localiza em sua possível recuperação. Nelson Pereira dos Santos nos apresenta um herói que agoniza, e o corpo do sambista à beira dos trilhos tem o valor de uma metáfora bastante cruel. Diante da fatalidade é possível fazer muito pouco, a não ser constatar que algo ali está se perdendo - uma tradição, uma criação artística, uma obra. Cabe então aos representantes da elite cultural resgatar esse patrimônio popular, pois ele está à beira do desaparecimento. Mas o que dizer do músico Moacir, que no filme seria tal “representante”? O sentimento que parece dominá-lo é o da preguiça diante do mundo. Donde se conclui que o trágico em Rio Zona Norte não é tanto o acidente com Espírito da Luz, mas a constatação algo ameaçadora de que o reconhecimento de sua obra só se dará se ela cair eventualmente nas mãos de um Moacir, ou seja, nas mãos da classe-média. Assim, Rio Zona Norte pode ser visto não propriamente como um filme sobre um sambista favelado, mas também como uma espécie de documentário sobre o drama de um jovem artista intelectual (Nelson Pereira) diante do problema central com o qual se defrontava: como lidar com a missão outorgada a si próprio de difundir e de instituir no cinema brasileiro uma arte nacional-popular?

Em Rio 40 Graus Nelson Pereira ambicionava fazer um painel da realidade carioca. Nos letreiros de apresentação, ouve-se a música de Zé Keti que diz “Eu sou o samba/ A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor”. Em Rio Zona Norte Nelson procura ocupar-se apenas com o dono dessa voz - e com os sanguessugas que estão ao seu redor. Por ter sido sincero em sua abordagem, Nelson Pereira realizou um filme um tanto sombrio, o que não deixava de ser fruto de certa maturidade: olhar para um só personagem havia se revelado, enfim, uma tarefa muito mais complexa e necessária do que dar conta de toda uma cidade.

(Texto de - Luís Alberto Rocha Melo)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio 40 Graus - 1955



Sinopse:

O filme é um semi-documentário sobre pessoas do Rio de Janeiro e acompanha um dia na vida de cinco garotos de uma favela que, num domingo tipicamente carioca e de sol escaldante, vendem amendoim em Copacabana, no Pão de Açúcar e no Maracanã.

Ficha Técnica:
Título Original: Rio Quarenta Graus
Gênero: Drama
Duração: 100 min
Lançamento: 1955
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Arnaldo de Farias ,Nelson Pereira dos Santos



Elenco:
Roberto Battaglin .... Pedro
Glauce Rocha .... Rosa
Jece Valadão .... Miro
Ana Beatriz .... Maria Helena
Modesto de Souza .... o proprietário da terra
Cláudia Morena .... Alice
Ivone Miranda
Antônio Novais
Jackson de Souza
Sady Cabral
Mauro Mendonça .... turista italiano no Pão de Açúcar